quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

La Niña Santa (Argentina, 2004)

Esse é um filme sobre abuso sexual/estupro e o deturpamento que a Igreja como instituição causa nas vítimas desse crime. Achei difícil de assistir, não por ser um filme ruim, mas por ser um tema denso e que me toca muito. 
É o segundo filme da Lucrecia Martel que assisto (o primeiro foi A Mulher Sem Cabeça) e reforço a sensibilidade e delicadeza que ela tem para tratar temas tão pesados.


Uma menina muito religiosa é molestada (mais de uma vez) por um médico. A mãe dela, não tão religiosa assim, está se apaixonando por esse mesmo médico sem saber dos abusos. A menina não quer contar à mãe sobre isso e, pior, entende o ato como um chamado de deus para salvar o tal médico. Só pela sinopse já dá para perceber que não é um filme fácil. 
Esse longa metragem é bem mais metafórico que A Mulher Sem Cabeça, mas ainda assim, achei um filme melhor. Martel usa muitos enquadramentos incomuns e mostra as personagens através de portas entreabertas ou atrás de paredes, dando uma ideia muito visual de como a personagem abusada está desorientada e perdida. 


Uma das sacadas mais geniais do filme, para mim, foi o final. Não se pode chamar de desfecho porque, assim como na maioria dos casos de estupro e abuso sexual, não há uma conclusão de verdade. Não sabemos o que acontecerá com o médico nem como a menina seguirá sua vida ou o que a mãe fará a respeito de tudo isso. Mas sentimos o choque da notícia revelada. Sentimos a dor e a angústia da menina. Sentimos o asco que toda vítima desses crimes sente por seu abusador. A figura do médico molestador ficou muito bem representada, gerando nojo e repulsa a cada vez que aparece em cena. 


Uma outra coisa que chama muita atenção no longa é o pano de fundo religioso. Existe uma crítica silenciosa a instituição católica que é muito precisa. Mostra as pontas soltas dessa religião tão agressiva, mostra como é uma religião que desestimula a busca pelo conhecimento e mostra também como isso interfere de maneira negativa na vida de quem se dedica ao princípios que o catolicismo cego impõe.
Além de toda essa parte negativa, é um filme que também aborda temas como a amizade e o amor familiar de forma positiva. Só que esses não são assuntos principais. Com certeza é uma película inquietante e que vale a pena ser vista. 
Além dos ângulos e enquadramentos diferentes que já citei, não tem muita novidade técnica. O longa termina com muitas reflexões jogadas para as espectadoras, mas não são justamente os filmes bons aqueles que nos fazem pensar? Para quem acredita nisso, esse filme é excelente.

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